Atualização de 4 anos de seguimento do Brightness Trial confirma a superioridade de adição de carboplatina e paclitaxel sem veliparibe no tratamento neoadjuvante do câncer de mama triplo negativo
20/09/2021
Mudança de paradigma no tratamento de câncer de mama metastático HER-2 positivo
05/10/2021

PANAMA trial: panitumumab + 5FU/LV x 5FU/LV isolado como terapia de manutenção em pacientes com câncer colorretal metastático RAS selvagem

Por Dra Emmanuely Duarte

O PANAMA foi um ensaio randomizado, aberto, de fase II publicado no Journal of Clinical Oncology (JCO) em 17 de setembro de 2021 que avaliou o benefício da terapia de manutenção com panitumumab associado ao 5FU/LV em pacientes com câncer colorretal metastático com status de mutação do RAS selvagem.

Sabemos que o tratamento padrão ouro atualmente empregado para pacientes com câncer colorretal metastático é baseado em quimioterapia com fluoropirimidinas e oxaliplatina ou irinotecano associado a anticorpos monoclonais que têm como alvos o EGFR ( como cetuximab, panitumumab) e o VEGF ( como o bevacizumab). Para aqueles tipicamente com tumores localizados no cólon esquerdo e com status de mutação do RAS selvagem recomenda-se o uso de anticorpos anti-EGFR , reservando os anticorpos contra o VEGF para os demais casos de câncer de cólon metastático.

Na era pré – anticorpos, estudos como o OPTIMOX já haviam demonstrado benefício da terapia de manutenção com 5 FU/LV após alguns ciclos de FOLFOX nesse contexto, visando reduzir a descontinuação do tratamento por toxicidade ( principalmente, neurotoxicidade). Posteriormente, pequenos estudos com anticorpos isoladamente também demonstraram algum benefício com essa estratégia de manutenção.

O PANAMA foi desenhado para avaliar a eficácia de Panitumumab ( Pmab) durante a terapia de manutenção com 5FU/LV em pacientes com câncer colorretal metastático com RAS selvagem em primeira linha de tratamento, com ECOG 0-1 e com boa funcionalidade orgânica. O estudo iniciou com terapia de indução com seis ciclos de FOLFOX mais Pmab para todos os pacientes. Após a terapia de indução, os pacientes com doença estável x remissão parcial ou completa foram aleatoriamente designados em uma proporção de 1: 1 para 5FU / LV mais Pmab versus 5 FU / LV isolado. Após a falha dessas terapias de manutenção, o estudo programou a reintrodução de FOLFOX mais Pmab em ambos os braços do estudo. O desfecho primário foi a sobrevida livre de progressão (PFS) na terapia de manutenção, definida como o tempo desde a atribuição aleatória até a progressão ou morte por qualquer causa.

O ensaio incluiu 387 pacientes entre maio de 2014 e fevereiro de 2021. Destes, 377 pacientes receberam terapia de indução, 265 foram submetidos a atribuição aleatória e 248 receberam terapia de manutenção (125 pacientes 5FU / LV mais Pmab; 123 pacientes 5FU / LV isolado). A última população serviu como o conjunto de análise completo para a análise confirmatória do desfecho primário. O follow-up médio do conjunto de análise completo foi de 35 meses aproximadamente.  A terapia de reindução com FOLFOX mais Pmab foi realizada em 45 pacientes (36%) do grupo FU / LV mais Pmab e 75 pacientes (61%) do grupo controle.

O desfecho primário (analisado com 218 eventos) foi alcançado, com uma melhora significativa de PFS com a  terapia de manutenção (HR, 0,72; 80% CI, 0,60 a 0,85; P = 0,014) com a adição de Pmab a 5FU / LV (8,8 meses; 80% CI, 7,6 a 10,2) em comparação com FU /LV isolado (5,7 meses; 80% CI, 5,6 a 6,0). A sobrevida global teve benefício numericamente no grupo FU / LV e Pmab versus FU / LV isoladamente (28,7 meses; [IC de 95%, 25,4 a 39,1] v 25,7 meses [IC de 95%, 22,2 a 28,2]), embora não tenha sido estatisticamente relevante (HR, 0,84; IC 95%, 0,60-1,18; P = 0,32).

A PFS da análise completa definida desde o início da terapia de indução até a progressão ou morte foi de 11,8 meses (IC de 95%, 10,0 a 13,5) x 8,6 meses (IC de 95%, 8,1 a 9,1) em pacientes que receberam 5 FU / LV mais Pmab  comparado com o grupo controle. A adição de Pmab foi geralmente bem tolerada, com uma taxa ligeiramente maior de eventos adversos em comparação com 5FU / LV isolado.

Esse estudo, apesar das limitações de um ensaio fase 2, é bastante relevante, ao passo que foi o primeiro a demonstrar o benefício em adicionar uma terapia anti-EGFR ao 5FU-LV no tratamento de manutenção em câncer colorretal metastático. Essa estratégia é utilizada a fim de reduzir ou retardar principalmente a neurotoxicidade causada pelos protocolos baseados em oxaliplatina. Anteriormente a esse estudo há estudos negativos com o bevacizumab ou um agente anti – EGFR isolados nesse contexto.

É importante ressaltar que a população de pacientes com câncer colorretal localizados à direita foi sub- representada, podendo constituir um viés de seleção. Associado a isso, pacientes com mutação de BRAF e instabilidade de microssatélites foram incluídos no ensaio e sabe-se que nessa população há outras alternativas de tratamento mais eficazes. Isso pode ter contribuído para a ausência de benefício em sobrevida global. Por fim, é fundamental um follow -up maior, bem como a realização de análises com subgrupos de pacientes selecionados de acordo com a presença de outras mutações e a lateralidade da neoplasia para melhor avaliar o benefício dessa estratégia.

DOI: 10.1200 / JCO.21.01332 Journal of Clinical Oncology

Buy now