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Estudo MyPathway Her 2 - Avaliação da combinação do uso de Trastuzumabe e pertuzumabe na coorte de tumores de vias biliares com amplificação e/ou hiperexpressão de HER2

Por Dra. Carolina Ferraz

Neoplasias de vias biliares, incluindo colangiocarcinoma e câncer de vesícula biliar, são tumores pouco incidentes, correspondendo a 03% de todos os tumores do trato gastrointestinal, entretanto são tumores que apresentam mau prognóstico e altas taxas de letalidade.

A cirurgia é a única modalidade curativa disponível, embora uma minoria de pacientes apresente doença ressecável ao diagnóstico. Mesmo os pacientes operados apresentam taxas altas de recidiva e posterior evolução para doença metastática.  Frequentemente estes tumores são diagnosticados em estádios avançados e contam com arsenal restrito de terapias sistêmicas eficazes. A quimioterapia combinada com cisplatina e gencitabina é considerado o regime de tratamento de referência na primeira linha, não havendo terapia padrão em linhas subsequentes. Os resultados mais animadores para esses grupos de pacientes têm surgido dos ensaios clínicos com enfoque em medicina de precisão.

A amplificação e ou hiperexpresssão do HER2 (ERBB2) é observada em 2 a 3% dos tumores sólidos e está associada a um comportamento mais agressivo de evolução da doença oncológica. Até recentemente o uso de terapias alvo anti HER2 aprovadas pelo FDA estava somente indicado para mama, estômago e tumores gastroesofágicos, porém novos estudos têm ampliado a indicação dessas terapias para outras neoplasias sólidas.

O Mypathway é um estudo de fase II, multicêntrico e não randomizado tipo basket, ou seja, que permite inclusão de tumores de histologias variadas, mas com uma alteração molecular comum, para receber uma terapia alvo específica, com o objetivo de aumentar o número de indicações de terapias anti HER2 para outros sítios de tumores sólidos.

Os dados da coorte de vias biliares foram publicados em julho de 2021 pela revista científica The Lancet oncology, nesta amostra foram incluídos 39 pacientes com idade acima de 18 anos, performance status 0-2, que apresentassem presença de hiperexpressão de Her 2 e houvessem progredido após terapias convencionais já aprovadas para uso nas neoplasias de vias biliares avançadas.

Os pacientes recrutados recebiam tratamento com anticorpo monoclonal pertuzumabe na dose de ataque de 840 mg seguida de manutenção de 420 mg a cada 03 semanas em combinação com o anticorpo monoclonal trastuzumabe na dose de ataque de 08 mg/Kg e posterior manutenção com 06 mg/kg também a cada três semanas até progressão de doença ou toxicidade limitante.

O desfecho primário avaliado foi taxa de resposta objetiva (TRO) pelos critérios de RECIST. Outros desfechos incluíram taxa de controle de doença (definido por resposta objetiva ou doença estável após 04 meses), duração de resposta (DOR) e perfil de segurança.

O estudo foi realizado entre 28 de outubro de 2014 e 10 de março de 2020, na coorte de vias biliares o tempo médio de seguimento foi de 8,1 meses (IC 2,7 – 15,7).

Após análises dos resultados foi evidenciado que 09 pacientes dos 39 incluídos apresentaram resposta parcial ao duplo bloqueio, com taxa de resposta objetiva (TRO) de 23% (IC 95 % 11-39).

O perfil de segurança da terapia com duplo bloqueio do HER2 foi considerado facilmente manejável, sendo o relato de toxicidade mais citado foi elevação de transaminases, mas sem notificação de eventos de maior gravidade ou descrições de mortes relacionadas ao tratamento.

Com os testes genômicos de tumores se tornando cada vez mais disponíveis estudos como este têm ajudado um maior número de pacientes a se beneficiar da medicina de precisão, especialmente em tumores com limitadas opções terapêuticas como é o caso das neoplasias de vias biliares.

Os dados de resposta objetiva foram considerados promissores e o tratamento com duplo bloqueio anti HER2 se mostrou seguro gerando espaço para estudos de fase III que consolidem cada vez  mais esta opção de terapia para pacientes com tumores de vias biliares metastáticos previamente tratados com esquemas convencionais que se encontram órfãos de novas terapias eficazes e facilmente toleradas que aumentem seu tempo de sobrevida.

Author profile
Dra Carolina Ferraz
Médico Oncologista at Real Instituto de Oncologia

Graduada em medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, Residência em Clínica Médica no Hospital Getúlio Vargas (Recife-PE). Residência em Oncologia Clínica no Real Hospital Português de Beneficência (Recife-PE), Oncologista do Real Instituto de Oncologia e preceptora da residência de Oncologia Clínica do Real Hospital Português (Recife-PE)

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