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Hormonioterapia adjuvante: novos dados sobre tempo de tratamento adjuvante em pacientes na pós menopausa.

Comentado por Dra. Cecília Arraes

A possibilidade de recorrência tardia, mesmo após 20 anos do diagnóstico e tratamento, é uma característica dos tumores luminais de Mama. Mais de 50% das recorrências ocorrem após os 5 anos do tratamento. Essa possibilidade gera angustia no Oncologista e na comunidade científica. Vários trabalhos tentaram definir o melhor tempo de tratamento adjuvante com hormonioterapia nessas pacientes, numa tentativa de estender esse tratamento e diminuir as recorrências tardias, porém os dados existentes são conflitantes e não existe resposta definitiva para esse questionamento.

Estender hormonioterapia com inibidor de aromatase (IA) além de 5 anos de tamoxifeno diminui recorrência em 40%, porém nas pacientes que já fizeram 5 anos de IA, estender o tempo de hormônio é ainda controverso. Por outro lado, os efeitos colaterais não são desprezíveis, com artralgias, fogachos, depressão, perda de libido impactando na qualidade de vida, diminuindo aderência ao tratamento e osteoporose e eventos ósseos e cardiovasculares aumentando morbidades.

Em 28 de julho de 2021, o grupo Australiano para estudo de Câncer de Mama (ABCSG) publicou os dados do SALSA trial (Secondary Adjuvant long Term Study with Arimidex). O objetivo do trabalho foi comparar se cinco anos seria superior a dois anos para tempo de tratamento adjuvante estendido em termos de sobrevida livre de doença – recorrência local ou a distância, câncer de mama contralateral, segundo primário, morte sem recorrência. Os objetivos secundários foram: efeito do tempo de tratamento na sobrevida global, tempo para eventos como câncer de mama contraletaral e segundo primário e evento ósseo.

O estudo randomizou mulheres na menopausadas de 2004 a 2010, abaixo de 80 anos, com tumores de Mama ECI, II e III, que já haviam recebido 5 anos de hormonioterapia (tamoxifeno, IA ou ambos) para 2 braços de HT estendida com Anastrozol: braço 1, paciente receberia Anastrozol por mais 2 anos e no outro braço, o mesmo tratamento por mais 5 anos. As pacientes incluídas na análise foram 3470 – 1732 no braço de 2 anos e 1738 no braço de Anastrozol 5 anos. Os grupos foram bem balanceados, com média de idade de 64 anos, 72,3% dos pacientes com tumores menores de 2cm, 66,3% tumores linfonodos negativos, 19,4% tumores de alto grau, 77,3% dos pacientes foram positivos para receptores de estrogênio e progesterona e perto de 80% foram tratados com cirurgia conservadora de mama. Apenas 28,8% das pacientes fizeram terapia neoadjuvante e 80% submetidas a radioterapia. Em relação ao tratamento adjuvante, 51% receberam tamoxifeno sozinho durante os primeiros 5 anos, 7,3% usaram IA isoladamente e 41,7% receberam tamoxifeno e IA na primeira fase de adjuvancia.

Com mediana de acompanhamento de 118 meses, iniciados 2 anos após randomização, 670 (20,9%) dos pacientes apresentaram progressão de doença ou morte, 335 em cada braço de tratamento. Os resultados aos 8 anos de tratamento evidenciaram taxa de sobrevida livre de progressão igual em ambos os grupos – 73,6% no braço de 2 anos e 73,9% no braço de 5 anos, com HR para progressão ou morte de  0,99. Também não houve diferença em sobrevida global aos 8 anos de seguimento, 87,5% no grupo 1 e 87,3% no grupo 2 e HR de 1,02. Também não houve diferença para risco de câncer contralateral e novo primário de Mama. Na análise de subgrupo, nenhuma categoria específica mostrou benefício do tratamento adjuvante estendido.

Por outro lado, em relação a fraturas ósseas, o tratamento prolongado aumentou risco de fraturas aos 5 anos após randomização – 4,7% x 6,3% – HR 1,35, mesmo com uso de medicações para proteção óssea. O estudo identificou que é necessário tratar 63 pacientes para desenvolver um evento ósseo.  Em relação a eventos adversos não ósseos, o tempo prolongado praticamente duplica a possibilidade de evento sério. Em termos de descontinuidade, no grupo de 2 anos, 20% se tornaram má aderente e no grupo de 5 anos, esse percentual subiu para 1/3 das pacientes.

O presente trabalho demonstrou que a extensão do tempo de hormonioterapia neste grupo de pacientes de baixo/médio risco e pós-menopausa, não mostrou benefício além de 02 anos. Por outro lado, houve aumento de efeitos adversos e perda de qualidade de vida, além de aumentar risco de fraturas ósseas.

Importante ponderar que esse trabalho tem limitações. Entre as quais, contemplou principalmente grupo de pacientes com risco médio/baixo de recorrência. Não podemos extrapolar esses dados para pacientes jovens, com tumores de alto grau. Nesse grupo, o tratamento deve ser individualizado.

REFERÊNCIAS:

  • Gnant, M. et al. Duration of Adjuvant Aromatase-Inhibitor Therapy in Postmenopausal Breast Cancer. N Engl J Med 2021;385:395-405.
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Dra Cecília Arraes
Médica Oncologista
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