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Novidades da ASCO-GI 2020

Por Cecília Arraes

A espera pelos Congressos da Oncologia aumenta a cada ano. Nesses eventos, são publicados os principais estudos que nortearão nossas condutas, muitos deles com estudos positivos, trazendo benefício de combinação de drogas, imunoterapia ou novos medicamentos. Entretanto na reunião anual da sociedade American Society of Clincal Oncology (ASCO) dos tumores gastrointestinais (TGI) que ocorreu no final de janeiro, não tivemos grandes novidades e o encontrou foi marcado por uma série de estudos negativos, com quase nenhuma mudança de conduta. Para ilustrar, citaremos os principais trabalhos esperados para esse ano, que não apresentaram resultados positivos:

JAVALIN GASTRIC 100 – estudo de fase III que comparou imunoterapia de manutenção com Avelumabe versus continuação da quimioterapia para os pacientes com tumores Gástricos ou de junção esofagogástrica localmente avançado ou metastáticos HER-2 negativo. Os pacientes que não progredissem após quimioterapia de primeira linha à base de Fluoropirimidina e platina após 12 semanas eram randomizados para imunoterapia de manutenção versus continuação da quimioterapia. Após seguimento mediano de 18 meses, o estudo foi negativo para sobrevida global– 10,4 meses no grupo da imunoterapia e 10,9 meses no grupo manutenção com quimioterapia, com HR 0,91. No subgrupo de pacientes PDL-1, também não houve benefício de sobrevida, com HR 1,13.

Inibidor de PARP associado a quimioterapia em Câncer de Pâncreas – estudo também  negativo, que comparou Cisplatina e Gemcitabina com ou sem Veliparibe de manutenção em pacientes com Adenocarcinoma de Pâncreas e mutação germinativa em BRCA ou PALB2. A taxa de resposta foi de 65,2% no tratamento com quimioterapia isolada, e 74,1% no regime com inibidor de PARP. A sobrevida global mediana foi 16,4 e 15,5 meses. A toxicidade foi maior no regime com inibidor de PARP, principalmente de toxicidades hematológicas de graus ≥ 3 (48% neutropenia, 55% plaquetopenia, e 52% anemia). Chamou atenção no estudo, alta taxa de resposta com o regime contendo platina na primeira linha, provavelmente justificada ação dessas drogas na presença de mutações na via de recombinação homóloga.

 

ARTDECO – Estudo fase III que avaliou incremento na dose da radioterapia definitiva no tratamento de tumores de Junção Gastroesofágicos associado a quimioterapia. A dose atual de 50,4Gy foi comparada com dose de 60,6Gy. Ambos os grupos fariam tratamento por 5 semanas concomitante a quimioterapia semanal com Carboplatina e Paclitaxel. Após uma mediana de 45 meses, o estudo não atingiu end-point primário de aumento de 15% na redução do risco de recorrência local. (71% x 73% para o braço experimental) . A taxa de sobrevida global foi igual (40%x41%), com aumento de toxicidade no grupo experimental.

 

JCOG 1007 – Estudo fase III que comparou ressecção do tumor primário colorretal metastático seguido de quimioterapia paliativa versus quimioterapia paliativa isolada. Não houve diferença em sobrevida global (25,9meses x 26,7 meses), com mortalidade pós operatório de 4%. Os regimes empregados no estudo foram mFOLFOX6 ou Capeox com ou sem bevacizumabe.

BEACON  – a atualização do BEACON – fase 3 que comparou em 3 braços quimioterapia versus inibidor de BRAF com Cetuximabe versus Inibidor de BRAF e MEK com cetuximabe em pacientes com mutação de BRAF V600E que progrediram a primeira ou segunda linha de quimioterapia. Houve melhor qualidade de vida para os braços da terapia alvo versus quimioterapia. Não houve diferença em sobrevida para o regime combinado com 3 drogas versus o regime apenas com Encorafenibe e cetuximabe.

Tivemos ainda vários outros estudos de qualidade de vida, como os que demonstraram melhor tolerância e maior tempo para deterioração clínica da combinação de imunoterapia (atezolizumabe) com antiangiogênico (bevacizumabe) em Hepatocarcinoma (HCC) versus sorafenibe (IMbrave 150) e o Checkmate 459 que comparou Nivolumabe isolado versus Sorafenibe em HCC e também demonstrou melhor em qualidade de vida com imunoterapia. Outra publicação nesta linha foi o POLO que não demonstrou piora de qualidade de vida em pacientes com Adenocarcinoma de Pâncreas BRCA mutado em tratamento de manutenção com Olaparibe.

Outros estudos com imunoterapia mostrando atualização dos dados com terapia combinada de Nivolumabe e baixas dose de Ipilimumabe em pacientes com instabilidade de microssatélite e tumores colorretais, demonstrando taxa de respostas de 60% (checkmate 142). Nos tumores de JEG/Gástricos também foi demonstrado benefício de Pembrolizumabe em qualquer linha (1L,2L ou 3L) em pacientes com deficiência nas enzimas do gene de reparo, com taxas de resposta acima de 50% (análise combinada dos estudos KEYNOTE-059, KEYNOTE-061 e KEYNOTE-062).

Os resultados negativos desses estudos não representam necessariamente notícias desanimadoras. Esses trabalhos também servem para sanar dúvidas, individualizar tratamento e direcionar trabalhos futuros.

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Dra Cecília Arraes
Médica Oncologista
 
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