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Suplementação dietética durante tratamento Oncológico.

Por Cecília Arraes

Esse é um tema bastante frequente no consultório do Oncologista ao receber um paciente com indicação de tratamento quimioterápico. Uma das principais preocupações, principalmente dos familiares, é a respeito da melhor dieta e quais suplementos são necessários no período do tratamento. Um recente estudo publicado no Journal of Clinical Oncology (JCO) em dezembro de 2019 abordou esse tema, o DELCaP trial. Esse estudo avaliou prospectivamente as pacientes incluídas em um ensaio clínico de quimioterapia adjuvante para Câncer de Mama – SWOG S0221- dividindo o grupo entre quem fez ou não suplementação dietética, principalmente antioxidantes, e se o uso desses suplementos impactou negativamente nos desfechos oncológicos.

O racional para esse questionamento é o fato de que a quimioterapia libera radicais livres de oxigênio para induzir morte celular, mas a suplementação dietética age justamente reduzindo esses radicais livres, principalmente os antioxidantes. Estariam, os suplementos antioxidantes, contraindicados durante o tratamento quimioterápico?

O estudo utilizou a amostra de pacientes selecionadas para tratamento adjuvante com os protocolos do SWOG S0221 e envolveu a aplicação de questionário. O primeiro, sobre suplementação pré-tratamento e o segundo, aproximadamente 6 meses após, no término da quimioterapia, sobre suplementação durante o tratamento. Um total de 1340 pacientes completaram o questionário 1 e 1134 pacientes responderam ambos.

Em relação a taxa de uso de antioxidantes, 20,5% dos pacientes fizeram suplementação de vitamina C antes e 12,5% durante o tratamento. Uso de vitamina A e E ocorreu em < 10% dos pacientes. Uso de qualquer antioxidante (Vitamina C, A e E e coenzima Q10, carotenóides) ocorreu em 17,5% dos pacientes. Quanto ao uso de multivitaminas, 44% dos pacientes utilizaram durante tratamento.

O resultado desse trabalho mostrou que entre os pacientes que usaram qualquer antioxidante antes e durante o tratamento houve aumento do risco de recorrência e morte, com razão de risco (HR) para recorrência de 1,41 e HR 1,40 para morte. Em relação ao uso de reposição de vitamina B12 e ferro, também houve piora do desfecho de recorrência e sobrevida global entre os pacientes que fizeram reposição antes e durante tratamento, com HR 1,83 para recorrência e de 2,04 para sobrevida global com uso de vitamina B12. Para o uso de ferro durante a quimioterapia, o HR 1,79 foi encontrado para risco de recorrência, com risco ainda maior com a suplementação durante a quimioterapia, HR 1,91. Esse risco foi semelhante em termos de sobrevida global para uso de ferro. Em relação ao uso de ômega-3 antes e durante tratamento, também foi encontrado pior desfecho em tempo livre de recorrência, mas sem impacto em SG. Houve relação significativa de pior tempo de recorrência entre as pacientes receptores hormonais positivos e que fizeram suplementação de antioxidantes.

Para o uso de polivitamínicos, não houve associação com pior desfecho para suplementação antes e durante o tratamento.

Apesar das limitações de um estudo observacional e de uma taxa de reposição vitamínica inferior a descrita na literatura (aproximadamente 60%), este trabalho traz mais uma evidência da falta de segurança com uso de suplementação, principalmente antioxidantes, durante tratamento quimioterápico. Quando avaliado uso de qualquer oxidante (incluído vitamina A, C, E, carotenoide e coenzima Q10), houve aumento de 41% no risco de recorrência e 40% no risco de morte. A avaliação individual de cada suplemento parece também reproduzir esses achados, mas não teve força estatística para ser validada, em virtude do baixo número de pacientes. Por outro lado, o estudo também mostrou que não houve associação negativa com uso de polivitamínicos. Quanto à vitamina B12, ferro e ômega-3, também houve associação a piores desfechos. A reposição de ferro impactou negativamente mesmo quando utilizado apenas durante o tratamento, uma vez que está associado a proliferação tumoral, potencialização do microambiente tumoral e a produção de radicais livres. Para vitamina B12, ainda não há uma explicação razoável que justifique sua contribuição para desfechos negativos, mas há associação de aumento de mortalidade com taxas elevados de vitamina B12 sérica.

Baseado neste trabalho e em outros prévios já publicados, não indicamos suplementação de antioxidantes durante o tratamento quimioterápico. Até que evidências mais robustas mostrem ausência de impacto negativos nos desfechos clínicos, mantemos a indicação de ter cautela com suplementos antioxidantes, reposição de ferro e vitamina B12.

Referência

  1. Ambrosone CB, Zirpoli GR, Hutson AD, McCann WE, McCann SE, Barlow WE, et al. Dietary Supplement Use During Chemotherapy and Survival Outcomes of Patients With Breast Cancer Enrolled in a Cooperative Group Clinical Trial (SWOG S0221). J Clin Oncol. 2019;JCO.19.01203.
Author profile
Dra Cecília Arraes
Médica Oncologista
 
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