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Valor prognóstico do Teratoma em tumor de Células Germinativas de Testículo Metastático

Por Cecília Arraes

Tumores de células Germinativas são os tumores mais prevalentes em homens de 15 a 35 anos. Nas últimas décadas, a incidência vem crescendo, mas houve uma melhora significativa de sobrevida com a introdução de tratamentos baseados na combinação de platina.

Os teratomas são tumores derivados de mais de uma camada de células germinativas. Os teratomas maduros são compostos por células bem diferenciadas, enquanto os imaturos, são compostos por células indiferenciadas. Raramente os teratomas se metastizam para vísceras. Eles disseminam principalmente para linfonodos e retroperitôneo. São tumores resistentes à quimioterapia, cujo tratamento principal é excisão cirúrgica.

O valor prognóstico do componente teratoma no tumor primário do testículo e nos linfonodos permanece incerto e poderia ajudar na orientação do tratamento. Baseado nesse questionamento clínico, trabalho publicado pela ASCO em março 2020 revela os dados de estudo restrospectivo da Universidade de Indiana sobre o valor prognóstico do componente teratoma nesse grupo de pacientes.

O estudo incluiu retrospectivamente pacientes com tumores mestastáticos não seminoma primário de testículo acompanhados na Universidade de Indiana entre 1990 e 2016 e tratados com esquemas baseados em platina. Os pacientes que tinham linfonodos retroperitoneais residuais maiores que 1cm pós quimioterapia eram submetidos à linfadenectomia e a espécie cirúrgica avaliada. Esses pacientes também foram incluídos no trabalho.

Ao todo, o estudo incluiu 1224 pacientes, os quais foram classificados nos grupos de risco do IGCCCG e avaliados para presença ou ausência de teratoma nos espécimes cirúrgicos do tumor primário e de linfonodos.

O objetivo primário do estudo foi avaliar a sobrevida em 5 anos dos pacientes com e sem componente de teratoma no tumor primário e como objetivo secundário, avaliar a sobrevida em 5 anos dos pacientes submetidos à dissecção linfonodal e presença ou ausência de teratoma e estimar a sobrevida livre de progressão em todos os grupos.

A média de idade foi de 27,3 anos. Todos os pacientes tinham tumor primário de testículo. Dos 1224, 999 pacientes tinham metástases ao diagnóstico, enquanto 225 no momento da recorrência. Em relação a classificação prognóstica, 753 (62%) eram de bom prognóstico, 172 (14%) risco intermediário e 299 (24%) mau prognóstico.

Em relação a histologia, 255 (21%) tinham histologia mista sem definir subtipo predominante, 76 (6%) predominava seminoma, 55 (5%) coriocarcinoma, 97 (8%) tumor saco vitelínico, 560 (46%) carcinoma embrionário e 181 (15%) teratoma.

Um total de 689 (56%) pacientes tinham componente de teratoma na amostra e 535 (44%) não tinham no tumor primário.  Média de seguimento foi de 2,3 anos.

Estimativa de sobrevida em 5 anos nos 1224 pacientes foi de 81,9%. Os pacientes com bom prognóstico, 89,6%, risco intermediário 79,9% e prognóstico ruim de 68,5%.

Estimativa de sobrevida livre de progressão em 5 anos para os pacientes com e sem componente de Teratoma no tumor primário foi de 61,9% e 63,1%, respectivamente. Quando ajustado para idade, grupo de risco, sítio e número de metástases, não houve diferença em sobrevida livre de progressão. Para sobrevida global, também não houve diferença – 82,2% x 81,4%. Também quando ajustado para os mesmos fatores, não houve diferença entre presença e ausência de componente de teratoma. Mesmo excluindo pacientes tratados de 1990 a 2000, também não houve diferença em PFS e OS.

Quando avaliado os pacientes submetidos a dissecção de linfonodos retroperitoneais, foram incluídos 473 pacientes. Sobrevida livre de progressão (PFS) foi de 65,9% x 79,1%. Estimativa de sobrevida global (OS) foi de 90,3% x 93,4%. Quando ambos os parâmetros foram ajustados para os pacientes que normalizaram marcadores após quimioterapia, não houve diferença em SG e PFS.

No grupo de pacientes com componente Teratoma, 80 (11,6%) morreram, 68 por progressão de doença. No grupo sem componente teratoma 68 (12,7%) morreram, destes 57 (83,3%) morreram por progressão de doença. Dos pacientes com teratoma nos espécimes de linfonodos ressecados, 22 (6,7%) de 327 morreram – causa da morte foi progressão de doença em 10 (46%), transformação em Teratoma Maligno em 2 (9%), toxicidade de tratamento em 4 (18%) e causa desconhecida em 6 (27%).

Os resultados deste trabalho mostram que a presença de Teratoma no tumor primário não conferiu pior prognóstico em termos de sobrevida livre de progressão e sobrevida global. Em relação a presença de teratoma nos linfonodos residuais retroperitoneais, a presença de Teratoma confere maior probabilidade de cirurgia, mas também sem impacto em sobrevida global.

A conclusão do estudo é que o componente de teratoma não deve ser encarado como fator de mau prognóstico e não deve mudar a conduta.

Este trabalho apresentou resultados diferentes dos apresentados pelo grupo do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, outro centro de referência em tumores urológicos. No paper publicado na JCO em 2019, eles avaliaram em análise retrospectiva 232 pacientes com tumor germinativo. Aqueles com componente de Teratoma tinham risco maior de mortalidade, principalmente componentes de Teratoma Maduro.

Diante de achados divergentes, necessitamos de mais evidências para concluir o impacto do componente teratoma como fator prognóstico nestes tumores.

 

Referências:

  1. Taza F, Chovanec M, Snavely A, Adra N, Hanna NH, Cary C, et al. The prognostic value of teratoma in the primary tumor and postchemotherapy retroperitoneal lymph node dissection (PC-RPLND) specimens in patients with germ cell tumors (GCTs). J Clin Oncol. 2018;36(15_suppl):4553–4553.
  2. Funt SA, Patil S, Feldman DR, Motzer RJ, Bajorin DF, Sheinfeld J, et al. Impact of teratoma on the cumulative incidence of disease-related death in patients with advanced germ cell tumors. J Clin Oncol. 2019;37(26):2329–37.

 

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Dra Cecília Arraes
Médica Oncologista
 
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