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Citorredução secundária em câncer de ovário recidivado sensível a platina: Desktop III trial

Comentado por Cecília Arraes em 20/12/2021

Publicado na New England Journal of Medicine em 02 de dezembro de 2021, O DESKTOP III trial trouxe mais informações sobre o papel da citorredução secundária em câncer de Ovário. O manejo de câncer de ovário recidivado após cirurgia e quimioterapia era principalmente baseado em quimioterapia sistêmica a base de platina nas doenças sensíveis. O papel de uma segunda citorredução ainda era incerto e baseado em análises retrospectivas.

Um grupo alemão começou a estudar o real benefício de uma segunda cirurgia citorredutora nessas pacientes. No primeiro trabalho, o DESKTOP I (Descriptive Evaluation of Preoperative Selection Criteria for Operability in Recurrent Ovarian Cancer), o grupo provou o beneficio da citorredução completa e estabeleceu escores preditivos de chance de cirurgia R0. O escore conhecido como AGO selecionaria as pacientes com maior probabilidade de ressecção R0 e que, portanto, se beneficiariam da cirurgia. Esse escore considera as pacientes elegíveis se tiverem status performance 0, o volume de ascite menor que 500ml e se a paciente foi submetida a cirurgia R0 na primeira abordagem cirúrgica. O objetivo maior é selecionar o grupo com real benefício à cirurgia R0, que foi o subgrupo com benefício em sobrevida. No estudo DESKTOP II, o grupo validou esse escore e 76% das pacientes selecionadas para cirurgia baseado nos critérios do AGO conseguiram cirurgia R0. Esse trabalho validou o escore AGO como preditivo de ressecção.

No DESKTOP III, o objetivo foi confirmar os dados de benefício de citorredução secundária nos desfechos de sobrevida livre de progressão e sobrevida global nas pacientes com Câncer de Ovário recidivado platino sensível.

As pacientes foram selecionadas em 2 grupos e randomizadas 1:1 entre cirurgia seguida de quimioterapia no grupo experimental versus quimioterapia isolada no grupo controle, com forte tendência a indicação de quimioterapia combinada. A estratificação ocorreu por local de tratamento e por intervalo livre de platina – 6-12 meses e > 12 meses.

As paciente elegíveis deveriam ter diagnóstico de câncer epitelial de ovário recidivado com pelo menos 6 meses de intervalo livre de platina. Um CA 125 elevado isolado não era critério de inclusão. Exigia doença mensurável.

Os desfechos avaliados foram sobrevida global, livre de progressão, qualidade de vida, taxa de cirurgia R0, complicações associada à cirurgia.

Um total de 407 pacientes participou da randomização – 206 no grupo experimental e 201 no grupo controle, de setembro de 2010 a março de 2015. Quanto ao perfil do grupo estudado, quase 70% era estágio III ao diagnóstico. Praticamente todos os pacientes receberam quimioterapia a base de platina ao diagnóstico e 75% dos pacientes teve intervalo livre de platina superior a 12 meses. A média do valor do CA 125 era de 61 no grupo experimental e 73 no controle. O tempo médio de inicio de quimioterapia no grupo controle foi de 15 dias e no grupo experimental foi de 16 dias para realização da cirurgia e 35 dias para inicio da quimioterapia após a cirurgia. Dos 206 pacientes indicados à cirurgia, 93% (192) realizaram o procedimento. No grupo controle, 32 pacientes no grupo de quimioterapia, submeteram-se a cirurgia posteriormente por recidiva de doença. Cirurgia R0 foi obtida em 75,5% dos pacientes em intenção de tratar e 70% dos pacientes randomizados. Não houve óbitos nos primeiros 30 dias após cirurgia e a taxa de reoperação foi de 3,7%.

O acompanhamento mediano foi de 69,8 meses. A sobrevida global mediana foi de 53,7 meses para o grupo de cirurgia e 46 meses no grupo que não realizou cirurgia (HR: 0,75). A sobrevida livre de progressão mediana foi de 18,4 meses no grupo de cirurgia e 14 meses no grupo não operado (HR: 0,66). Entre os pacientes no grupo da cirurgia que tiveram ressecção completa, a sobrevida global mediana foi de 61,9 meses em comparação a 27,7 meses.

A maioria das pacientes em ambos os grupos receberam pelo menos cinco ciclos de quimioterapia a base de platina – 76,7% no grupo de cirurgia e 79,6% no grupo de não cirurgia.

Não houve diferença em qualidade de vida no grupo com e sem cirurgia. Todos os subgrupos se beneficiaram de cirurgia.

Apesar de outro trabalho publicado em 2019, o GOG 0213 não ter mostrado benefício de cirurgia citorredutora secundária, o estudo alemão foi positivo. A utilização do escore AGO foi uma ferramenta importante e validada para que o DESKTOP alcançasse o objetivo. No estudo GOG não houve critério de seleção. O cirurgião definiu possibilidade de ressecabilidade dependendo das imagens do PET/CT. Outro ponto importante foi qualidade da técnica cirúrgica no estudo Alemão, cuja taxa de complicações foi mais baixa do que as relatadas nas citorreduções primárias. Além disso, o estudo do GOG utilizou quimioterapia combinada com bevacizumabe e bevacizumabe de manutenção, enquanto apenas 11% dos pacientes do DESKTOP fizeram uso do antiangiogênico. Esses pontos parecem justificar a diferença nos resultados.

Aguardemos os resultados do SOC-1, trabalho também dedicado a elucidar essa questão, que em análise interina, já foi positivo em sobrevida livre de progressão e também utilizou critérios predefinidos (iMODEL).

Diante desses resultados, temos evidência para indicar a cirurgia como opção de tratamento neste cenário, desde que a paciente preencha os critérios para citorredução secundária R0.

REFERÊNCIA:

 

  • Harter P, Sehouli J, Vergote I, et al. Randomized trial of cytoreductive surgery for relapsed ovarian cancer. N Engl J Med 2021;385:2123-2131.
  • Coleman RL, Spirtos NM, Enserro D, et al. Secondary surgical cytoreduction for recurrent ovarian cancer. N Engl J Med 2019;381:1929-1939.
  • Shi T, Zhu J, Feng Y, et al. Secondary cytoreduction followed by chemotherapy versus chemotherapy alone in platinum-sensitive relapsed ovarian cancer (SOC-1): a multicentre, open-label, randomised, phase 3 trial. Lancet Oncol 2021;22:439-449.
  •  Ginger J.  Recurrent Ovarian Cancer — Sculpting a Promising Future with Surgery – N Engl J Med 2021; 385:2187-2188
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Dra Cecília Arraes
Médica Oncologista
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