Quimioterapia Neoadjuvante seguida por cirurgia em câncer de orofaringe associado ao HPV localmente avançado associado.
29/11/2021
Citorredução secundária em câncer de ovário recidivado sensível a platina: Desktop III trial
24/12/2021

Hepatectomia seguida por mFOLFOX6 versus hepatectomia isolada para pacientes com câncer colorretal e metástase hepática (JCOG 0603)

Por Carolina Matias

Desde meados dos anos 90 foi demonstrado que pacientes com metástases hepáticas de câncer colorretal poderiam ter sobrevida longa após ressecção cirúrgica das metástases.

Apesar da evidência favorável para quimioterapia (QT) adjuvante em pacientes com câncer colorretal em estadio III, os estudos com QT no cenário perioperatório de metastasectomia hepática mostraram aumento em sobrevida livre de doença, mas não em sobrevida global, como o estudo randomizado EORTC 40983.

Neste contexto, o estudo japonês publicado na Journal of Clinical Oncology pelo Dr. Kanemitsu vem acrescentar conhecimento nessa área.

O estudo randomizou 300 pacientes recrutados entre 03/2007 a 01/2019 para cirurgia isolada versus cirurgia seguida de quimioterapia adjuvante com esquema mFOLFOX6 por 6 meses. O endpoint primário foi sobrevida livre de doença. A população era predominantemente de tumores colônicos (75%), sendo as metástases sincrônicas ao tumor primário em 55% dos casos. A grande maioria (91%) tinha 1 a 3 lesões hepáticas e não havia recebido quimioterapia com fluopirimidina previamente (73%).

Na 3ª análise interina o estudo foi finalizado com 69% dos eventos ocorridos, devido ao achado de melhora da sobrevida livre de doença no braço da QT adjuvante. A sobrevida livre de doença em 5 anos foi de 38,7% no braço da cirurgia isolada vs 49,8% no braço da cirurgia seguida de QT (HR 0,67; 95% IC 0,5-0,92, p=0,006). Todos os subgrupos pareceram se beneficiar em termos de sobrevida livre de doença, exceto o subgrupo que recebeu fluopirimidina adjuvante prévia e o subrupo de tumores de lado direito.

Porém, a sobrevida global em 5 anos foi de 83,1% para o braço da cirurgia e 71,2% para o braço que recebeu QT adjuvante (HR 1,25, 95% IC 0,78-2,0, 0=0,42). Nenhum subgrupo pareceu se beneficiar da QT em termos de sobrevida global.

Kanemitsu et al propõem 4 mecanismos potenciais para explicar esse achado controverso em sobrevida global: dano hepático relacionado a QT, pressão seletiva de clones quimiorresistentes, desbalanço em tratamentos subsequentes nos 2 grupos e maior toxicidade no braço que recebeu QT.

Apesar do endpoint sobrevida livre de doença ter se mostrado um bom desfecho substituto para sobrevida global em estudos de tratamento adjuvante para estadios mais iniciais em câncer colorretal, temos agora 2 estudos randomizados que não demonstram benefício em sobrevida global na adição de quimioterapia com FOLFOX para pacientes com câncer colorretal metastático para fígado e submetidos a ressecção das metástases, apesar da sobrevida livre de doença mais longa.

Esse achado deve mudar a prática clínica de oferecer QT para os pacientes sem ter uma conversa franca sobre o potencial benefício em atrasar a recidiva, porém sem qualquer benefício em sobrevida a longo prazo, levando em conta também a toxicidade associada à quimioterapia.

Author profile
Dra. Carolina Matias
Médica Oncologista at Real Instituto de Oncologia

Graduação em Medicina: Universidade Federal de Pernambuco.
Residência em Clínica Médica: Hospital das Clínicas da UFPE.
Residência em Oncologia Clínica: AC Camargo Cancer Center, São Paulo-SP.
Mestre em Medicina Tropical pela UFPE.
Tutora de medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde.
Preceptora da Residência de Oncologia Clínica do Real Hospital Português e do IMIP e da residência de clínica médica do Hospital Barão de Lucena

Buy now