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Jejum intermitente e câncer

Por Heberton Medeiros Teixeira

Em 26 de dezembro de 2019 foi publicada na renomada revista médica New England Journal of Medicine (NEJM) uma revisão, mostrando o estado da arte e uma quebra de paradigma no nosso hábito alimentar, sobre os benefícios do jejum intermitente na saúde de uma forma geral, assim como sugere benefícios durante o tratamento de câncer de próstata e glioblastoma, por exemplo. O artigo foi escrito por Rafael de Cabo, Ph.D., and Mark P. Mattson, Ph.D. com o seguinte título Effects of Intermittent Fasting on Health, Aging and Disease.

O artigo inicia falando do histórico desse tipo de experimento em 1997, inicialmente em animais e que o racional seria a diminuição da produção de radicais livres através da mudança metabólica da glicose derivada do fígado para cetonas derivadas de células adiposas que devem ocorrer diariamente ou vários dias por semana e lembra que nos primórdios da nossa existência os homo sapiens não realizavam três refeições ao dia e nem lanches entre as refeições e que o nosso organismo evoluiu adaptado a esse ambiente.

Estudos mais recentes em animais e humanos mostraram que muitos dos benefícios à saúde do jejum intermitente não são simplesmente o resultado da produção reduzida de radicais livres ou da perda de peso. Em vez disso, o jejum intermitente provoca respostas celulares adaptativas e evolutivamente conservadas, integradas entre e dentro dos órgãos de uma maneira que melhora a regulação da glicose, aumenta a resistência ao estresse e suprime a inflamação.

Após uma refeição a glicose é utilizada como energia e a gordura é armazenada no tecido adiposo na forma de triglicerídeos. Durante o período de jejum, os triglicerídeos são quebrados em ácido graxos e glicerol e utilizados como matriz energética por nossas células, o fígado, por sua vez, converte os ácidos graxos em corpos cetónicos que é uma importante fonte de nutrição para o tecido cerebral, durante o jejum.

Os corpos cetônicos não são apenas o combustível usado durante os períodos de jejum; são moléculas potentes de sinalização com efeitos importantes nas funções das células e órgãos. Eles regulam a expressão e a atividade de muitas proteínas e moléculas que influenciam a saúde e o envelhecimento.

Outro ponto importante é que não parece haver perda de massa muscular se o indivíduo mantém um programa regular de treinamento de resistência.

Os benefícios parecem ser alcançados em diversas áreas como obesidade e diabetes mellitus, doença cardiovascular, desordens neurodegenerativas, esclerose múltipla, asma, artrites e injúria tecidual cirúrgica ou isquémica.                No câncer especificamente, inúmeros estudos em animais demonstram que o jejum intermitente diminui a incidência de neoplasias e aumenta a sensibilidade a quimio e radioterapia, da mesma forma, acredita-se que o jejum prejudique o metabolismo da célula cancerígena. Estudos clínicos em humanos demonstraram que a restrição calórica apresentou excelente aderência e não levou a efeitos adversos em pacientes com câncer de próstata e relatos de casos em glioblastoma revelaram supressão dos fatores de crescimento tumoral e aumento de sobrevida. Ensaios clínicos estão acontecendo em câncer de próstata, mama, ovário, endométrio, colo retal e glioblastoma, a maioria envolve regimes de jejum intermitente durante a quimioterapia. Vale salientar, que até o momento, nenhum estudo revelou diminuição da recorrência do câncer em seres humanos.

Existem duas formas principais de prescrição que deverão ter suas metas atingidas em torno de 4 semanas, a primeira consiste em fazer jejum 18h diariamente e a segunda seria um jejum (por 10-16h) duas vezes por semana com uma restrição calórica de 500 calorias nos dias em que se está realizando o jejum. Deve-se alertar o paciente dos efeitos adversos que são comuns ocorrer nas primeiras semanas (irritabilidade, cefaleia, sensação de fome e diminuição da concentração), autolimitados.

Os desafios para implantação de restrição calórica na nossa população são inúmeros como a nossa cultura com o hábito de 3 refeições e lanches diários, marketing alimentar, fartura de alimentos e poucos profissionais de saúde preparados para esse tipo de orientação. Por outro lado, os estudos até o momento apontam benefícios em vários setores da saúde e a restrição calórica através do jejum intermitente pode ser um dos objetivos a ser alcançado no intuito de uma mudança de estilo de vida melhor.

Author profile
Dr. Heberton Medeiros - Oncologia
Dr Heberton Medeiros
Médico Oncologista at Real Instituto de Oncologia

Graduação em Medicina: Universidade Federal do Rio Grande do Norte- UFRN.
Residência em Clínica Médica: Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Residência em Oncologia Clínica pelo AC Camargo Cancer Center, São Paulo-SP.
Mestre em Medicina Tropical pela UFPE.
Preceptor da Residência de Oncologia Clínica do Real Hospital Português.

 
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