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Consumo de álcool e Câncer: Onde estamos?

Por Dra Carolina Zitzlaff

Nos últimos 2 anos, com a pandemia do COVID-19, o receio de adoecimento, tristeza pelo distanciamento social, além de questões econômicas, vem sendo associado com aumento de índices de ansiedade e estresse, favorecendo também o aumento no uso de álcool.

Dados divulgados de pesquisa realizada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 33 países e dois territórios das Américas, apontaram que 42% dos que foram entrevistados no Brasil, relataram alto consumo de álcool durante a pandemia de Covid-19. Esses índices alertam para um aumento de morbidade associado ao álcool, inclusive com aumento do risco de câncer, especialmente gastrointestinal e hepático.

Alguns mecanismos têm sidos postulados sobre a carcinogenicidade do álcool: suas propriedades solventes podem facilitar a penetração de carcinógenos pela membrana celular, além do aumento de níveis de estrogênio e impactos no metabolismo do folato. Pode ainda atuar como irritante da mucosa, o que aumenta a produção celular, como inibidor da metilação do DNA ou como prometabólito de outros carcinógenos, como o acetaldeído. A carcinogênese relacionada ao uso de álcool interage ainda com outros fatores como tabagismo, dieta e susceptibilidade genética.

Atualmente, dispomos de dados que sugerem que o uso crônico do álcool seja responsável por aproximadamente 3,6% dos casos de câncer no mundo, e que contribui para 3,2% das mortes por câncer nos Estados Unidos. Paradoxalmente, menos da metade dos americanos sabem que o uso de álcool pode aumentar o risco de câncer.

Uma metanálise de 2015, com 572 estudos observacionais, demonstrou que o risco relativo (RR) de câncer em entre indivíduos com uso pesado comparado ao uso ocasional de álcool foi maior nos casos de câncer de trato aerodigestivo superior (oral e faringe RR 5.13, 95% CI 4.31-6.10], esôfago [4.95, 95% CI 3.86-6.34], e laringe [2.65, 95% CI 2.19-3.19]). Essas associações eram ainda dose-dependentes.

Outros estudos indicam que mesmo o consumo leve a moderado de álcool parece aumentar o risco de câncer, independente de história de tabagismo. Entre mulheres que nunca fumaram, o uso de 1 medida de álcool/dia demonstrou aumento de câncer, especialmente mama (RR 1.13, 95% CI 1.06-1.20).

Um estudo publicado no Lancet em 2021, estimou que, globalmente, 741.300 ou 4,1% de todos os novos casos de câncer de 2020 eram atribuíveis ao consumo de álcool. Homens foram responsáveis por 568700 (76·7%) desses casos, e câncer de esôfago, fígado e mama contribuíram para a maioria dos casos.  A maioria destes casos de câncer foi representada por consumo excessivo (46·7%) ou arriscado (39·4%), enquanto o consumo moderado contribuiu para 103.100 casos (13·9%) e a ingesta de até 10g por dia contribuiu para 41.300 casos, dados que chamam bastante atenção.

Todos esses dados sobre uso de álcool e seus riscos e benefícios tem limitações pelo fato de que não há estudos randomizados de longo prazo, sendo nosso conhecimento baseado em estudos de curto prazo ou estudos observacionais.

No entanto, cada vez mais se considera que não parecer haver um limite seguro para o uso de álcool, e, atualmente, a ASCO (American Society of Clinical Oncology) adverte que o uso de álcool é um fator de risco estabelecido para diversos tipos de câncer e um potencial fator de risco modificável. Já a ACS (American Cancer Society) recomenda completa abstenção no que concerne a prevenção de Câncer, já que parecer haver aumento de risco de câncer mesmo com o consumo de menos de 1 drink por dia.

Devemos considerar ainda que o consumo de bebida alcóolica está associado ainda com outras doenças que impactam na sobrevida dos pacientes, como doença hepática crônica, pancreatite crônica, colelitíase, osteoporose, demência, acidentes e traumas.

Por fim, em pacientes sobreviventes de câncer, sugere-se a mudança de estilo de vida, com cessação de tabagismo e redução de uso de álcool, que pode atuar como prevenção de segundos tumores primários.

https://doi.org/10.1016/ S1470-2045(21)00279-5

https://doi.org/10.1016/j.canep.2021.101893

Nat Rev Cancer. 2007;7(8):599.

Last Call? Moderate Alcohol’s Health Benefits Look Increasingly Doubtful – Medscape – Dec 22, 2021.

BMJ. 2015;351:h4238. Epub 2015 Aug 18.

Author profile
Dra. Carolina Matias
Médica Oncologista at Real Instituto de Oncologia

Graduação em Medicina: Universidade Federal de Pernambuco.
Residência em Clínica Médica: Hospital das Clínicas da UFPE.
Residência em Oncologia Clínica: AC Camargo Cancer Center, São Paulo-SP.
Mestre em Medicina Tropical pela UFPE.
Tutora de medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde.
Preceptora da Residência de Oncologia Clínica do Real Hospital Português e do IMIP e da residência de clínica médica do Hospital Barão de Lucena

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