PALOMA- 2 : dados de sobrevida global após follow- up de 90 meses

Predição de mutação de BRAF V600E e instabilidade de microssatélite através do CA 19.9 e CEA
31/05/2022
Destiny 04
20/06/2022

Comentado por : Dra. Emmanuely Duarte

          O câncer de mama receptor hormonal positivo representa o maior subgrupo da doença, responsável por 60 a 65% de todas as neoplasias malignas da mama. Por várias décadas o tratamento desse subgrupo tem sido direcionado à via de sinalização do receptor de estrogênio. Porém, devido a ocorrência de resistência a medicamentos que atuam nesta via, novas abordagens terapêuticas são necessárias. Nesse contexto, foram desenvolvidos tratamentos que atuam inibindo as quinases dependentes de ciclina (CDK 4 e 6), que desempenham um papel importante na regulação da progressão do ciclo celular em diversas condições malignas da mama associadas à resistência à terapia endócrina.

         O palbociclibe é um inibidor de pequenas moléculas de CDK 4 e 6 e foi estudado no trial Paloma- 2, ensaio randomizado, duplo -cego, de fase 3, publicado na NEJM em 17 de novembro de 2016. Esse estudo randomizou em uma proporção de 2:1, 666 mulheres na pós-menopausa com câncer de mama RH-positivo e HER2-negativo, que não haviam recebido tratamento prévio para doença avançada para receber palbociclibe mais letrozol ou placebo mais letrozol. O desfecho primário foi a sobrevida livre de progressão (SLP) , conforme avaliado pelos investigadores; desfechos secundários foram sobrevida global, resposta objetiva, benefício clínico, resultados relatados pelo paciente, efeitos farmacocinéticos e segurança.

        Esse estudo atingiu o endpoint primário, com uma SLP mediana de 24,8 meses (IC 95% 22,1 a não estimável) no grupo palbociclibe-letrozol em comparação com 14,5 meses (IC 95%, 12,9 a 17,1) no grupo placebo-letrozol (HR 0,58; IC 95%, 0,46 a 0,72; P <0,001), às custas de eventos hematológicos relevantes. Neutropenia em qualquer grau ocorreu em 79,5% dos pacientes, apesar de que menos de 2% estava associada à febre.

         Esses dados promissores levaram à consolidação do uso deste inibidor de ciclina no cenário do tratamento de primeira linha do câncer de mama RH + HER 2 negativo, mas não havia dados maduros ainda de sobrevida global com o seguimento de 23 meses.

         Foram apresentados dados da sobrevida global em recente sessão na ASCO/2022 após follow-up de 90 meses, quando o número de eventos necessários foi alcançado (405 mortes). A mediana de SG entre aqueles que receberam palbociclibe + letrozol ( 444 pacientes)  foi 53,9 meses ( IC 95% 49.8-60.8) comparado com 51,2 meses ( IC 95% 43,7 – 58,9) , com p = 0,3378 e HR 0,956 ( 0.777- 1.177) entre aqueles que receberam placebo e letrozol ( 222 pacientes).

       O PALOMA-2 atingiu seu endpoint primário, com benefício em SLP relevante e também alcançou outros desfechos, como: taxa de resposta, segurança e qualidade de vida. No entanto, isso não se traduziu em ganho de sobrevida global. Esses dados devem ser interpretados com cautela, pois havia uma porcentagem grande e desproporcional de pacientes com dados de sobrevida ausentes entre os braços de tratamento (13% dos participantes no braço de palbociclibe e 21% daqueles no braço placebo não tinham dados de sobrevivência devido a retirada do consentimento ou perda de acompanhamento). A fim de entender essa discordância, os pesquisadores realizaram uma análise post-hoc não planejada que excluiu pacientes com dados ausentes. Nesta análise, a SG mediana foi de 51,6 meses com palbociclibe e 44,6 meses com placebo, mas não significativa.

       Apesar de não haver significância estatística, esses dados devem ser analisados com bastante cautela devido aos possíveis vieses que podem ter surgido diante do grande número de pacientes sem os registros de sobrevida no estudo; e não se pode desprezar a longa sobrevida (mais de 50 meses) proporcionada por essa medicação neste cenário do câncer de mama.

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